sábado, 26 de março de 2016

O amor é uma condenação


 "Nisto está o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados." João 4:10
 
Uma das palavras mais ditas hoje em dia é amor, e ela é falada em diversos sentidos: "eu amo você", "eu amo dormir", "eu amo sorvete" e por aí vai. Mas o que é amor? Longe de querer dar um sentido único, gostaria de colocar aqui algumas opiniões apenas, a começar pela definição dada por LuízVaz de Camões, que diz:

“Amor é um fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói, e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer [...]”
O amor é sentimento, é atitude, é fogo, é um milhão de sentimentos e sentidos que não podem definir em exatidão essa palavra. Porém pra mim o amor vai além das palavras, para mim o AMOR é uma pessoa, um ser mais especificamente.
“Amar é um verbo, e o Verbo é Deus" [r.p]
Quando pensei na frase acima, o texto de João 1 estava em minha mente, pois nos versos desse capítulo nos é falado que tudo foi feito por intermédio dEle e para Ele, dessa forma, Ele é a substância perfeita e primeira, Ele é o princípio, Ele é o amor, e tudo quanto mais é uma derivação desse amor.

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." João 1:1

Jesus é a verdade, a vida, e o caminho (Jo 14:6), é o sumo sacerdote (Hb 6:20), e muito mais do que isso, Jesus é a intervenção divina no nosso mundo (Jo 1:29; 3:16; 10:10).

A intervenção que nos trouxe vida. Percebam que Jesus é retratado de uma forma diferente em João 1, Ele é enunciado como o Verbo de Deus, e essa palavra verbo, para tecer um comparativo,  contêm as noções de ação, processo ou estado [1].

Jesus é o Verbo de Deus, é a ação pela qual o Pai demonstrou amor entregando o Seu Filho para morrer em nosso lugar, enquanto ainda éramos pecadores (Rm 5:8). Esse ato foi à ação de Deus em nosso favor.

"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." João 3:16 

Jesus é o verbo, porém esse verbo deve ser conjugado, assim como no português, e entenda conjugar por unir (-se), ligar (-se), juntar (-se) harmonicamente a ou com (algo ou alguém); misturar (-se); combinar (-se) [2].

Ou seja, é necessário que conjuguemos o Verbo Jesus, mas precisamente aqui o Verbo amar, para que nos unamos com Ele e sejamos transformados. O amor procede de Deus, e sendo nós agora unidos nEle, somos aperfeiçoados no amor pelo Espírito Santo. O amor de Deus reverbera em nós através de Cristo, e nós devemos refletir esse amor. Ele é a esperança da glória (Cl 1:27).

Deus é amor, Jesus é amor, então nos lembremos de que aquele que não ama, também não conhece a Deus, pois Deus é amor (1 Jo 4:20). Aquele que não se mistura com Jesus e não compartilha dessa essência com Ele através do Espírito Santo, verdadeiramente não conhece a Deus. 
"Ser cristão sem amor, é como pescar sem a isca." [r.p]
Talvez João pegue pesando dizendo que aquele que diz amar a Deus e odeia o seu irmão, é mentiroso, porém isso apenas é impressão, pois se pensarmos bem isso seria realmente impossível, e o versículo conclui falando como é possível não amar aquele que se vê, e dizer que se ama Aquele a qual não se vê? (I Jo 4:20)
quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a qu
1 João 4:20
quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a qu
1 João 4:20
quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a qu
1 João 4:20
quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a qu
1 João 4:20

Deus é amor, e sua ação foi entregar o Seu filho amado quando ainda éramos pecadores para nos reconciliar com Ele, desta forma amar ao próximo é necessário... e aqui surge algo importante, pois é necessário que nos lembremos de que nada, absolutamente nada saiu do controle de Deus. Ele sabia que o mundo seria como ele é atualmente, mas criou-o mesmo assim. Deus sabia que o relacionamento com Ele seria rompido pelo pecado, então criou o antídoto quanto a isso: 
“Antes de haver luz, houve Cruz.” Ariovaldo Ramos
Deus criou o mundo apesar de, Ele enviou a Jesus apesar de, e Cristo morreu por nossos pecados apesar de. O amor dEle rompe o entendimento, e é por isso que esse amor deve gerar a mesma ação que gerou em Cristo, a saber: Renúncia, entrega e morte.

Jesus morreu para que nós pudéssemos viver, sua morte gera vida, e essas vida deve ser usada para gerar mais vidas. 
"[...] a maior utilidade da vida de alguém é ser gasta em algo que sobreviverá a ela, porque o valor de uma vida não é calculada pela sua duração, mas por sua doação; não importa quanto vivemos, mas sim, a integridade e qualidade de nossas vidas." J. Oswald Sanders apud Willian James, Liderança Espiritual, p.83
Como já vimos anteriormente, Deus é amor, Jesus é o verbo do Pai, e devemos conjugar esse verbo, devemos nos unir com Ele para que sejamos aperfeiçoados pelo Espírito Santo, e sendo Ele amor e nós aperfeiçoados nEle, é impossível amar a Deus e odiar ao próximo.

Porém isso acontece, e com certeza gera desconforto, pois não amamos a todos, e queremos andar com Deus. É uma loucura total, uma briga interminável dentro de nós. Freud, em seu livro O mal estar da Civilização (1930) nos diz que:
“Quando amo outrem, este deve merecê-lo de alguma forma [...] Ele o merece, se em semelhantes aspectos semelha tanto a mim que posso amar a mim mesmo nele [...] Esse desconhecido não apenas não é digno de amor em geral; mas direito a minha hostilidade, até meu ódio.” O mal estar na civilização, Sigmund Freud, p. 54-55
Ou seja, para amar o outro é necessário que esse seja parecido comigo, que me traga benefícios, que eu possa me ver nele e assim amar-me a mim mesmo nele. Freud completa dizendo que o próximo não só não é digno do meu amor, mas do meu ódio, pois esse em momento oportuno esse irá me passar para trás. Nietzsche falando sobre a compaixão (que devemos ter pelo próximo) em seu livro O Anticristo (1895), nos diz que:
“Os fracos e fracassados devem perecer: primeiro principio de nossa filantropia. E realmente se deve ajuda-los nisso. O que é mais nocivo que um vício qualquer? A compaixão em ato para todos os fracassados e os fracos – o cristianismo...” O Anticristo, Nietzche, p. 19.
Freud e Nietzsche estão certos. Se não há um Deus, não tem porque cargas d'agua eu amar meu próximo. Porém se Deus realmente existe e eu o professo como Senhor da minha vida, e uno-me com Ele, amar ao outro é um mandamento. Mandamento este deveras difícil, diga-se de passagem, e por N motivos:
  • Amar ao outro é difícil por que nem sempre vamos nos encontrar no outro; dificilmente encontraremos algo que nos agrade ou que nos traga benefícios e amor próprio;
Ora, o mundo é composto de vários seres, um diferente do outro, e muito dificilmente vamos encontrar alguém que compartilha as mesmas coisas que a gente, e ouso dizer que se encontrarmos alguém de semelhança indubitável, mataríamos este, pois não nos aguentaríamos.
  • Amar ao outro é difícil porque temos que ser servos, e há certas pessoas que não gostaríamos de serem servidas;
Imagina ter que servir o cara que se acha o bonzão da comunidade, o cara que acabou de te assaltar, de levar seu ultimo centavo, ou então servir aquele cara que já tem tudo e é esnobe? Creio que não preciso delongar tanto aqui, pois todos nós nos identificarmos.
  • Amar ao outro é difícil porque simplesmente não queremos.
Simplesmente porque não queremos amar, simples assim. Isto acontece porque pressupõe que deixemos de lado certas coisas, necessitaria que aceitássemos o outro como ele é; aceitando-o com suas diferenças de opinião e etc. E isso absolutamente não dá, há certas pessoas que não são dignas do nosso amor, poderíamos pensar. Agostinho explica isso dizendo que

"A alma manda na proporção do querer, e enquanto não quiser, suas ordens não são executadas, porque é a vontade que da ordena de ser a uma vontade que nada mais é que ela própria.” Confissões. Sto Agostinho, p. 180.
Pelas nossas próprias forças não somos capazes nem de amar a Deus. Preferiríamos o inferno ao invés dEle, e se não fosse o seu amor primeiro por nós, não seríamos nada. Talvez isso soe pesado para você, mas pense um pouco, o que é morte? É a separação de nós com Deus. E o que causa a morte? Isso, o pecado. E o que escolhemos mais, Deus ou o pecado, a vida ou a morte?

Graças a Ele que somos salvos (Ef 2:8-10), e ainda bem que isso não depende de nós, pois nessa missão falharíamos feio. Foi pela obra redentora de Cristo que podemos ascender ao céu, e é isso que faz toda a diferença, fomos acolhidos por Ele, e no amor Dele e Nele somos aperfeiçoados. Quando estamos Nele, estamos no amor, embora escolhamos mais a morte do que a vida, pois como Paulo diz, o bem que quero fazer não faço, mas o mal que não quero, faço (Rm 7:18-20). Entendamos que Nele podemos amar, amar a Deus e ao próximo, ainda que de forma imperfeita devemos tentar amar o outro com o mesmo sentimento que ouve em Cristo, e para que isso aconteça é necessário que morramos todos os dias para as nossas vontades para que Cristo viva em nós.

Então ainda que não veja algo que me faça me amar mais no próximo, ainda que o próximo seja um idiota, eu devo ama-lo, ainda que ele seja a pior pessoa do mundo, eu devo servi-lo, pois Deus nos amou da mesma forma, e talvez aqui cheguemos ao ápice do texto. Pois veremos que o AMOR de 
Deus é uma condenação.

Deus olhou para nós, viu nossas mazelas, nossa maldade, me viu, nos viu matando Seu Filho amado e nos viu escolhendo o inferno ao invés Dele. Deus nos declarou culpados, e então nos condenou ao Seu Amor.
  
Entendamos que condenar é declarar pena do réu [3]. Somos réu do Seu amor. Apesar de nossas mazelas, de nossas escolhas torpes, Deus nos amou, e esse amor deve ser estendido apesar de qualquer coisa. Essa é a nossa sentença, a morte não tem mais vitória, ela é agora a nossa aliada. O amor dEle lança fora o nosso medo, pois quando seriamos dignos dele? 

E isso acontece por quê?
  •  Porque não é por nossas obras que Ele nos ama;
Não é pelo que fazemos ou deixamos de fazer que Deus nos ama mais ou menos. Ele nos amou antes mesmos de que nós fôssemos criados.
  • Porque não é por merecimento que Ele nos ama.
Não é por nossa beleza nem nada do gênero que nos fez ser amados, sendo assim, não há nada que façamos que vá nos separar do amor de Deus. Nós não conseguimos esse amor, ele nos foi dado, não pertence a nós, e se não nos foi dado por qualquer fator, não temos como perder, pois esse amor pertence a Deus.

“Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.” Romanos 8:38-39

A única solução que nos resta é retribuir esse amor, amando a Deus sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos (Mt 12:30-31).

Como amar ao próximo?
  • Não fique questionando se ama ou não, haja como se amasse (C.S. Lewis, em Cristianismo Puro e Simples);
  • Saiba perdoar. O perdão não é um evento único, mas eterno. É necessário que nos esqueçamos do pecado do outro, e lembremo-nos que somos iguais a ele, e quem sabe até não pior;  
  • Saiba servir, se colocar no lugar do outro; Saiba que ao servir ao próximo, é ao próprio Deus a quem você serve (Mt 25:40). 
 
Não, o próximo talvez não seja digno do nosso amor realmente, mas também nós não somos dignos do amor de Deus, porém apesar disso somos amados por Ele, e dessa forma devemos amar ao próximo como Ele nos ama, em ação. 
Ronnedy Paiva
Colunista




[1]      SIGNIFICADOS. Disponível em: http://www.significados.com.br/verbo/
[2] GOOGLE. Disponível em: https://www.google.com.br/search?q=conjugar&ie=utf-8&oe=utf-8&gws_rd=cr&ei=7Rz2Vpa4AcuYwASjyrKgCA#q=conjugar+significado
[3]      DICIONÁRIO INFORMAL. Dispon´vel em: http://www.dicionarioinformal.com.br/condena%C3%A7%C3%A3o/

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