quarta-feira, 5 de março de 2014

Meritocracia Cristã



   Por incrível que pareça, muitos cristãos defendem o mérito e a conquista como fatores que os levaram a melhores condições de vida. Frases de efeito como: “se você se esforçar você consegue” são entoadas constantemente por “cristãos vencedores” para estimular e justificar sua condição aos outros, esquecendo-se estes porém, que é estatisticamente remota a possibilidade de as pessoas sem praticamente nada conquistarem algo a mais. Isso comprova que a vida é extremamente mais difícil para uns que para outros e são exceções, pessoas que da miséria alcançam algo totalmente com as próprias mãos.


   Em suma, o objetivo aqui não é pregar que os menos favorecidos devem apenas observar a vida passar, eu concordo que devemos lutar pelo que queremos e muito mais pelo que precisamos independente de conseguirmos ou não, mas o foco aqui é mostrar que determinados fatores que formam nossos pensamentos, opiniões e determinam nossas ações são inválidos e até mesmo anticristãos.

   Na sociedade atual, muito se fala, mais indiretamente que diretamente, sobre o conceito de meritocracia. Tal conceito basicamente enfatiza o merecimento de posições ou condições melhores dentro da sociedade e suas instituições de acordo com o mérito próprio, legitimando assim a conquista.

   O conceito em si é nobre sem dúvidas, porém a aplicabilidade em sua totalidade no mundo real é minimamente ingênua. Isso em virtude do próprio conceito pressupor em sua base igualdade de condições para os concorrentes.

   O sistema econômico que vivemos é baseado em desigualdades, em outras palavras, é necessária a existência de ricos e pobres, bonitos e feios, inteligentes e “burros” entre tantos outros antônimos sociais que os mais cuidadosos logo notarão a relação existente entre eles.

   A questão, é que tacitamente alguns nascem merecendo boa vida, oportunidades e outros não. Uma constelação de fatores pré-definidos pela sociedade de acordo com por exemplo cor de pele e/ou classe social são essenciais para a determinação de como será a vida dos indivíduos e o que eles enfrentarão na caminhada pela sobrevivência. 

   Este conceito é facilmente superado apenas olhando para a realidade geral, analisando-a cuidadosamente. Muito aqui se poderia falar buscando esclarecer possíveis e previsíveis questionamentos acerca do que foi dito até então mas a rasa introdução se deu apenas pelo intuito de relacioná-lo ao universo cristão e demonstrar que considerá-lo em tal meio é absurdo e negação da Graça.

   O “enroscar do bigode” se dá exatamente ai, na questão da graça, que em poucas palavras significa assumir que Jesus Cristo, nos deu através de Seu sacrifício, a vida e a salvação que não merecemos.

   Logo, tudo que temos é pela graça de Deus, sendo isso algo que os cristãos deveriam entender bem, ou seja, nada se trata de conquista e sim dádiva. Deus nos dá para nos abençoar e não por merecermos.

   Como agravante da situação dos crentes meritocratas, quem aceita Jesus como Senhor e Salvador, voluntariamente entrega tudo o que possui (ou acredita possuir) para que o Senhor administre como bem entender, significando tal renúncia uma decisão de amor para com Deus e o próximo.

   A bíblia diz que o Poderoso, Santo, Supremo e Glorioso Deus nos ama e sabe perfeitamente o que é melhor para nós, crer nessa verdade exige entrega total e fé. É o que vemos em Jeremias 29:11 quando diz: “Porque eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que esperais”.

   Ninguém é obrigado a fazer o que Deus quer, mas os cristãos em verdade o fazem por amor, decisão e confiança. Ao contrário do que tem acontecido, o mérito não pode ser utilizado como preceito para determinar a vida das pessoas pelas razões já citadas, mas apenas em situações específicas e bem esclarecidas que o legitimem. Como dito no início do texto, devemos sim lutar pelo que queremos mas muito mais pelo que precisamos independente de conseguirmos ou não, afinal, o cristão tem convicção na providência divina independente das circunstâncias, sendo esta certeza a força motriz de nossa luta e busca cotidiana.


#Post do Leitor

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