quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sobre nós, uma espiritualidade vazia, e o Salmo 13


Há muito que medito nesse salmo para que consiga escrever algo sobre ele. Confesso que lendo o nosso décimo terceiro salmo, de imediato pouca coisa veio a minha cabeça. As idéias fugiram, e um grande período de meditação fez-se necessário. Gostei do desafio, o Salmo 13 falou ao meu coração, e humildemente espero falar ao seu. Que Deus nos abençoe.

“Até quando, Senhor? Para sempre te esquecerás de mim? Até quando esconderás de mim o teu rosto? Até quando terei inquietações e tristeza no coração dia após dia? Até quando o meu inimigo triunfará sobre mim? Olha para mim e responde, Senhor meu Deus. Ilumina os meus olhos, do contrário dormirei o sono da morte; os meus inimigos dirão: "Eu o venci", e os meus adversários festejarão o meu fracasso. Eu, porém, confio em teu amor; o meu coração exulta em tua salvação. Quero cantar ao Senhor pelo bem que me tem feito” – Salmo 13



Gente triste é um problema. Crente triste então, nem se fala. Gente que um dia exultou o coração em Deus, e agora por situações das mais diversas, não consegue mais alegrar-se pelas mesmas coisas já experimentadas são um desastre. Gente que murmura, reclama.

Ah, mas antes eu tinha tanto prazer em orar
Parece que antes eu sentia mais a presença de Deus
Deus não ouve mais as minhas orações, elas batem no teto e voltam
Não vejo motivo para adorar a Deus, se ao invés de crescer e melhorar, estou estacionado

Esses são relatos comuns. Gente que sofre, e não, não tem problema nenhum sofrer. Você não sofre por ser mais pecador, ou por castigo de Deus. Não! Não é falta de vida com Deus, tempo de oração ou intimidade com a palavra. Você sofre porque sofrimento e coisa de gente, e tenho uma boa notícia para te dizer, você é gente!

Comumente confundidos espiritualidade e religião com algo momentâneo, instantâneo, imediato e constante.

Explico, cremos que à partir de uma decisão ou conversão a dada religião e doutrina, nossos problemas tendem a se acabar; o sofrimento já não é mais possível para nós; e a nossa vida será à partir de então um sucesso em todas as áreas. Por exemplo: gente que acredita que Deus é obrigado à abençoá-la.

Acreditamos que a espiritualidade ideal é aquela que ao fecharmos os nossos olhos, de forma miraculosa, sem necessariamente uma reflexão mais aguda, receberemos uma “luz”, informação direta dos céus com a resolução de nossos problemas. Abro parênteses, por aí estão as reuniões religiosas de templos lotados com seus super sacerdotes que recebem essas revelações, ignorando qualquer outro tipo de conhecimento, científico ou até mesmo teológico contrário ao que eles ensinam. Fecha parênteses.

E acreditamos ainda, que a nossa vida religiosa, se resistir à alguma dessas mentiras, deverá então permanecer como no início. Os mesmos sentimentos, as mesmas sensações, as mesmas convicções assimiladas, o crescimento de argumentos. Conseguimos aprender algumas coisas, porém, quando essas coisas se tornam convicções, à partir de então, a necessidade agora é de vivenciá-las e não aprender novas coisas. Exemplo: aprendo que a minha religião prega que devo ser uma pessoa que faz bem as demais, com o tempo, me torno alguém que faz bem as pessoas, e por aí vai.

Pois bem, o nosso décimo terceiro salmo nos mostra alguém que passou por essas fases. Talvez até tenha alguma dessas características, mas nos ensina como vencê-las também. Quero encorajá-lo a aprendermos um pouco mais de como experimentar uma espiritualidade diferente, vencendo a espiritualidade vazia.

Em primeiro lugar, venceremos a espiritualidade vazia quando entendermos que somos limitados. Você com certeza pensou: “NOSSA, que verdade profunda em Mateusão!” Tudo bem, confesso que admitir ser limitado não é uma coisa nova a se fazer, mas é algo que na prática se torna mais difícil.

Sofrimento existe, você sofrendo também ou não. Angústias existem, sendo sobre a sua vida ou de seus próximos. O desafio é não lidar com o sofrimento como se ele fosse algo insuperável. Somos inconstantes, agora, enquanto escrevo, estou tranqüilo, calmo, pensativo, mas há 40 segundos atrás gritei com a minha mãe por deixar a porta do quarto onde estou aberta. Nosso humor oscila. Nossa alma não se aquieta. Nossa vida não é estagnada. Estamos em movimento.

Você pode não admitir, mas você não é mesmo de ontem. Nem provavelmente será amanhã, o mesmo que é agora. Você muda. Tem seu temperamento, mas com o passar do tempo você nota que algumas coisas que fez e faz, precisam melhorar. É aprendizagem. É amadurecimento. É crescimento. O que o salmo nos ensina é que você muitas vezes não encontrará resposta para tudo, e nem deve. Você certamente irá falhar na frente de quem você não poderia, e essa não será a primeira nem a última vez que acontece. Você é humano, cheio de falhas, medos e defeitos.

Enquanto não admitirmos que nossos limites existem, não aprenderemos que uma espiritualidade genuína é coisa de gente que se conhece e quer melhorar, entendendo que nunca será perfeita, mas não descansa na sua mediocridade.

Gente que sabe qual é o seu limite, descansa pois não será perfeita, mas não se conforma, pois acredita na sua mudança.

Em segundo lugar, venceremos a espiritualidade vazia quando aceitarmos a ajuda de outros. A pior besteira que alguém pode fazer na sua caminhada pelas aventuras da espiritualidade é acreditar que pode caminhar sozinha. Veja, não estou defendendo que você precisa de alguém que te represente, que alguém seja mais que você, estou simplesmente dizendo que você precisa de pessoas.

Pessoas precisam pessoas. Você precisa de pessoas. Pessoas precisam de você. Isso não é auto-ajuda, o nome disso é comunhão. Uma vez ouvi alguém dizer: “você sabe que tem coisas que você faz melhor que outros, e também sabe que você tem muito para aprender”. De fato, é isso que acontece.

Tem gente que lê muitos livros, e não sabe falar bem; enquanto outros se expressam muito bem, sem nenhuma timidez, mas não tem conteúdo para transmitir. Essas duas pessoas cooperando juntas se completam para a apresentação de um seminário, por exemplo. Para a confissão de sua fé, e assim por diante.

Achar que sozinho o caminho é mais fácil, é esperar o primeiro tropeço para permanecer caído. A bíblia diz que quando um cai, o outro pode ajudá-lo, e é sempre melhor dois do que um.

Espiritualidade que fortificada somente na solidão é um aprisionamento em si mesmo. É trancar a porta do quarto com as janelas fechadas e não querer dar de cara com os seus medos particulares, ansiando alguém para com quem dividi-los.

Em terceiro lugar, encerro por aqui. Venceremos a espiritualidade vazia quando confiarmos naquilo que dizemos crer. Aqui é a síntese de tudo. Só adere à uma determinada doutrina quem acredita nela. Só confessa uma fé, quem realmente crê naquilo. O desafio aqui, é diagnosticar o porquê da mudança disso. Claro que já vimos três possíveis desafios, mas aqui é “um olhar para trás” e voltar a buscar aquilo que se acreditou no início e com o tempo se perdeu.

Conhece gente que aprendeu a ler e depois de se habituar à prática já não sente mais o sabor e a felicidade das sílabas unidas? Gente que considera ser madura demais para contar piadas sem graça numa madrugada na casa dos amigos? Gente que considera evoluída para voltar a se alegrar com brincadeiras infantis?

É o tipo de gente que acha que é demais, mas quando olha para dentro do coração não tem nada.

O salmo 13 está dizendo para esse tipo de gente, volta a acreditar da forma que era antes. Lembra das coisas que você já sabe e que essa caminhada já te ensinou. Pára de buscar novidade e aprenda a valorizar novamente aquilo que você se esqueceu.

Daí fica muito mais fácil dizer: Quero cantar ao Senhor pelo bem que me tem feito, não necessariamente nesse tempo, mas porquê na companhia dele aprendemos a valorizar aquilo que se deve.


Que Deus te abençoe, obrigado pela sua companhia.

A Graça e a paz.


Mateus Machado

Colunista

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