domingo, 26 de fevereiro de 2012

#Pastoral - O caminho do perdão

       Como é estreito e cheio de obstáculos o caminho do perdão e da reconciliação. São poucos os que se atrevem trilhá-lo. José entrou pelo caminho do perdão e resolveu percorrê-lo até o fim. Para tanto, precisou administrar em sua mente e coração algumas novas compreensões a respeito de sua história e dos acontecimentos que marcaram sua biografia. Precisou afirmar sua confiança na soberania de Deus, renunciar o rótulo óbvio de vítima dos fatos e assumir compromisso com a celebração do futuro, apesar das memórias tristes do passado. 


      Em primeiro lugar, o perdão é possível somente quando a alma ferida aceita e confessa a verdade da soberania de Deus. Compreende, antes de tudo, que não são as pessoas que decidem nossa vida, mas Deus. Por piores que sejam aqueles que cruzam nosso caminho, e por maldosos ou injustos que sejam, e mesmo que intentem prejudicar-nos, e ainda que consigam, não teriam qualquer poder sobre nós, não fosse a permissão de Deus. Na verdade, mais que permissão: a intenção de Deus em usar tal circunstância para nos abençoar e conduzir em Seus propósitos. José disse aos seus irmãos que não deveriam recriminar-se por terem-no vendido, uma vez que estava convicto de que fora Deus quem o enviara adiante deles para servir de livramento naqueles anos de fome. Estava ciente de sua importância num plano maior, cujos desdobramentos garantiriam a salvação da terra e a existência de um remanescente para a linhagem de Abraão, seu bisavô. Cria na soberania de Deus: “não foram vocês que me mandaram para cá, mas sim o próprio Deus” – afirmou. 


     Em segundo lugar, o perdão é possível somente quando a alma ferida renuncia todo e qualquer rótulo de vítima, por óbvio que pareça. Quem não sentenciaria os irmãos de José como os algozes dessa história? Quem não identificaria José como a vítima de toda essa sordidez? Qualquer um, menos o próprio José. Não via a si mesmo como vítima. Sua confiança na soberania de Deus conduziu-o a uma visão correta de si mesmo: “Deus me tornou ministro do Faraó; fez de mim administrador de todo o palácio e governador de todo o Egito. Voltem depressa a meu pai e digam-lhe: Assim diz o seu filho José: Deus me fez senhor de todo o Egito”. Por outro lado, as verdadeiras vítimas, numa perspectiva de fé, foram os irmãos de José. Não apenas por terem vendido o irmão caçula (e a própria alma), numa atitude movida por inveja e complexos de inferioridade, mas também por terem permanecido aprisionados pela culpa todos aqueles anos: “Certamente estamos sendo punidos pelo que fizemos ao nosso irmão. Vimos como ele estava angustiado, quando nos implorava por sua vida, mas não lhe demos ouvidos. Por isso, nos sobreveio esta angústia”. 


     Em terceiro lugar, o perdão é possível somente quando a alma ferida decide superar as marcas do passado em nome da alegria futura. Toda mágoa remonta o passado. Rancor é passado contínuo, feito presente, interminável. Contamina o presente e sacrifica o futuro, pois monopoliza pensamentos e emoções, enquanto impede que sejam lançadas novas sementes. Quem olha apenas para o passado sofre o presente e renuncia o futuro. Teme o futuro, prevendo-o como repetição, rememoração, reedição infinita do mesmo trauma. E o temor produz o que teme! José tinha marcas profundas em seu passado. Ao mesmo tempo, porém, uma vontade enorme de celebrar o futuro. Sabia que tempo perdido não pode ser recuperado, mas também que não precisa invadir ou comprometer o tempo que resta. Estava decidido a construir nova história, começar do “zero”, desfrutar o melhor de Deus: “contem a meu pai quanta honra me prestam no Egito e tudo o que vocês mesmos testemunharam. E tragam meu pai para cá, depressa”. 


      José percebeu que melhor que terminar de matar sua família em suas lembranças seria ressuscitá-la em seu coração. Fez isso. Depois de convidá-la para morar no Egito, abraçou e beijou todos os seus irmãos, chorando. Até o Faraó, tendo ouvido a respeito do que ocorrera na casa de José, decidiu entrar na festa: ofereceu o melhor do Egito para Jacó e seus filhos. Deus é maravilhoso, fiel e está no controle de tudo. O futuro a Ele pertence! Parabéns, José! Estamos todos felizes por você.


     Trecho do livro “Viver é Uma Arte: a história de José e outras crônicas”, do Pastor Marcelo Gomes, com lançamento marcado para abril de 2012.


Corpo Pastoral 1° Igreja Presbiteriana de Maringá
Pr. Marcelo Gomes

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