domingo, 3 de julho de 2011

Irmãos - Território 7


Um conto de Gustavo Guilherme

“A razão vos é dada para discernir o bem do mal.”
Dante Alighieri

Assim que os vi naquela manhã, dei a eles nomes ordinários em minha mente fértil. E o fiz por não saber, na verdade, qual a alcunha real daqueles seres.

Batizei-os em silêncio de Bem e Mal. Também os imaginei crescer com tal educação: um antagonista do outro, não podendo, em hipótese alguma e jamais, conviver em harmonia. Não existiriam nunca quaisquer possibilidades de alguma sociedade entre eles. Um era vilão, o outro era mocinho. Um vestiria sempre o azul; outro, cinza. Estavam destinados a odiarem-se mortalmente para sempre.

Era sexta-feira quando decidi comprar mantimentos para casa quando, por acaso, dei de cara com a peleja. Bem e Mal se enfrentavam ferrenhamente no beco ao lado do Supermercado.

A violência que meus olhos enxergavam era louca, insaciável, incansável. Estaquei mudo, deixando as sacolas cheias de alimento caírem na calçada.

O Bem avançava contra seu oponente com absoluta ingenuidade e, em troca, recebia golpes certeiros na cabeça. Vestia-se como um príncipe, em azul, tecido raro. O Mal, coberto em panos banais e de cor acinzentada, investia pancadas agressivas no peito e no rosto do Bem sem dar tréguas, arrancando-lhe a vida aos poucos.

Eu, petrificado, observava calado a luta espantosa. Socos, pontapés, mordidas, palavras de ofensa, cuspidelas e hostilidade – tudo aquilo me parecia um espetáculo de gosto duvidoso, um circo de horrores cruel e fatal.

O Mal, infatigável, desviava-se facilmente das empreitadas previsíveis de seu inofensivo opositor. A batalha era covarde, Mal sempre fora o mais forte.

Golpeado na boca com um murro atroz, Bem despencou quase sem vida ao chão. Gravemente ferido, seus olhos alcançaram os meus. Suas pálpebras cobertas de sangue não escondiam as pupilas dilatadas. Seu olhar silencioso me implorava socorro.

Eu, movido de coragem afoita, corri em direção ao combate. Sem notar, alcancei o queixo de Mal com meus punhos cerrados. Meu soco, desleixado e fraco, o pegou de surpresa. Ele, sem saber direito o que o acertara, tombou aos meus pés, batendo a cabeça violentamente contra a parede. De olhos fechados, gemeu de dor, colocando a mão aberta sobre o ferimento. Furioso, disse alguma palavra que não compreendi e se preparou para se erguer. Porém, antes que ele pudesse abrir os olhos e procurar o que o atingira, meus instintos agiram de repente. Investi contra ele um chute que lhe deslocou o maxilar e o fez tombar desacordado sobre o asfalto frio, envolto pelas sombras que insidiam dos prédios no beco.

Gotas quentes de sangue acertaram meu braço. Despertei da ira inconseqüente. Estarrecido com minha própria violência, me afastei devagar, trêmulo, sem notar que Bem já estava de pé, observando o sofrimento de seu algoz.

Acometido de medo, gritei:

– Eu o matei! Meu Deus, eu o matei!

Bem, com frieza nos olhos, respondeu:

– Acalme-se, senhor. Este desgraçado ainda vive.

– E não há nada que possamos fazer para ajudá-lo? – indaguei aterrorizado.

– Ajudá-lo? Você está louco? – disse Bem, um tanto hostil – Este infeliz precisa morrer! Agora!

Bem, de repente, cerrou os punhos e caminhou na minha direção. Eu, tomado de pavor, me desviei de seu caminhar obstinado e me afastei depressa. Contemplei intimidado os passos determinados daquele ser. Ele estava decidido a eliminar seu adversário imediatamente.

Ardendo em fúria, com as veias sobressaltadas no pescoço largo, Bem ergueu Mal pelo pescoço, estrangulando-o com incomensurável cólera, enquanto eu continuava a me distanciar.

A intensidade do estrangulamento era assombrosa. Em alguns segundos, o Mal estaria morto. Bem triunfaria sobre seu rival. Possivelmente, me cumprimentaria pelo socorro prestado ou, quem sabe, me recompensaria pela ajuda. Bem, entretanto, já não parecia o mesmo. Seu rosto, outrora sério e resplandecente, tomara formas tenebrosas e se transformara. De suas costas nasciam asas negras, e na pele esbranquiçada apareciam escamas vermelhas rapidamente. As roupas claras chamuscavam e derretiam, enquanto a longa cabeleira negra e lisa perdia totalmente a cor e a textura, tornando-se acinzentada e volumosa.

Eu, outra vez bestificado, reconsiderei a esperança de recompensas e decidi correr. Se permanecesse ali, poderia me tornar vítima daquela fúria, ou do que talvez estivesse por vir caso Mal ainda despertasse. Por segurança, iria embora de volta pra casa o mais depressa possível.

Antes de partir, me permiti uma última olhadela. Eu, confuso e atordoado, já não sabia mais dizer quem era Bem, quem era Mal.


Texto do BLOG Território 7 (Irmãos)

Um comentário:

  1. Profundo.
    Se pagamos o mal com mal, qual a diferença?
    Nos igualamos a este.

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